segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O lagarto sorrindo Por Adriana Janaína Poeta CPF.:01233034782 Conto/ ficção nº 4/ Volume I Coleção: O Carneiro Todos os direitos reservados Clube de Leitura dos Poetas

O lagarto sorrindo Por Adriana Janaína Poeta CPF.:01233034782 Conto/ ficção nº 4/ Volume I Coleção: O Carneiro Todos os direitos reservados Clube de Leitura dos Poetas Escrito em 18/10/2025 Décio ajeitou os óculos de grau, depois calçou as sandálias. Era dia de semana, verão, manhã de sol. Usava bermuda de brim, camisa gola pólo, mangas curtas, se preparava para ir até a praia, próximo ao seu apartamento com vista para o mar. Era um apto amplo, bem mobiliado. Pegou as chaves da casa, a carteira, na mesa onde escrevia e trabalhava, ao lado da sala de estar. Bem iluminada, arejada, com estantes cheias de livros, a mesa, a cadeira estofada, uma poltrona, o computador, a velha máquina de escrever, quadros, porta retratos. Ainda não abriu a correspondência, deixou sobre a mesa, junto a alguns esboços, anotações, sobre o seu próximo romance. Parou um momento à porta, antes de deixar a sala que usava como escritório. Olhou mais uma vez para a mesa, depois saiu, deixando a porta da sala aberta. Saiu do apartamento, ganhou o corredor, chamou o elevador. - Seu Décio!... - Chamou Bruna, a vizinha, pouco antes de Décio entrar no elevador. Décio pôs a mão na porta, para que não fechasse. Colocou a cabeça para fora, reconhecendo a vizinha. Sorriu. - Vou descer com o senhor. - disse a vizinha, retribuindo o sorriso, entrando no elevador. - Como vai? - Bem, e a senhora? - Senhora, seu Décio? Sou jovem, apesar dê ser mãe de três filhas. - A senhora me chama de senhor, eu retribuo. - Somos amigos!... Posso dizer isso, não? Somos vizinhos, há alguns anos. Me chame apenas de Bruna. Eu vou chamá-lo de Décio. é que o senhor... Digo você, é importante, autor conhecido... Por isso, o chamava assim. Parecia adequado, mas tem toda razão, Décio. - Sou como qualquer pessoa, Bruna. - Comentou Décio, de olhos nos andares no painel, para acompanhar a descida. - Ah, mas não é mesmo! Escrever bem, é para poucos. Eu leio, releio o que você escreve, e penso: nossa!... O autor mora ao lado! Fico orgulhosa, espantada!... É um privilégio. - Obrigado, bruna, mas pense nisso... Fora o fato de escrever, sou como qualquer ser humano. A porta abriu. Estavam na portaria. Décio deixou o elevador, Bruna permaneceu nele, mas pôs a mão, segurando a porta. - Aonde vai? Vou para o centro da cidade com meu carro. Estou indo agora para a garagem. Quer uma carona? - Vou caminhar na praia. Obrigado. - Agradeceu Décio, indo embora. Bruna continuou observando. - Até logo! - Até... Décio desceu o lance de escada, abriu o portão social, ganhou à calçada. Antes de alcançar a praia, Bruna passou por ele, bem devagar, dirigindo o seu carro, sorridente. - Boa caminhada, Décio! Décio sorriu. Atravessou a rua, checou se as chaves do apartamento estavam no bolso, apesar de ter deixado as portas fechadas, mas não trancadas. Olhou, demoradamente para o mar. respirou o ar com o cheiro ensolarado da manhã e do mar. o céu estava azul, limpo. Já havia pessoas na praia, na areia, no calçadão, nos restaurantes, quiosques... Fora o barulho dos carros, ônibus, motos, o som das ondas do mar abraçando a areia, sempre o inspirava. Sentou-se em um dos bancos de pedra do calçadão, de frente para o mar e a areia. Juntou as mãos. Ficou assim por cerca de meia hora. Logo percebeu que algo se arrastava, à direita, entre o asfalto e a areia, na calçada... Calmamente, espalmava suas patas e garras, rebolando, movendo o corpo, a cabeça, para os lados, até chegar bem perto do banco, onde Décio estava. O lagarto, com seu corpo esverdeado, azulado, cinzento, parecia olhar para Décio, e este sustentou o olhar, ambos sérios. Como nada aconteceu, o lagarto não se movia, durante quase cinco minutos, Décio decidiu falar... - Já notei que você é um sujeito calado. Timidez? Apenas reservado? Tem alguma crítica com relação ao meu trabalho como autor, a minha pessoa? Fique à vontade, diga o que quer, critique, elogie, ou fique calado. A praia é o lugar mais democrático, e a manhã de sol faz bem para você. Para mim também. O lagarto continuou imóvel, ainda o encarando, quieto. - Bom dia, Décio! - Cumprimentou um homem que corria pelo calçadão, fones nos ouvidos, sorridente, suado, ofegante. - Estou cuidando da saúde! - Bom dia! - Retribuiu Décio. Não lembrava quem era, mas sempre era gentil, respondendo aos cumprimentos. Olhou para o mar, mais uma vez. Lembrou do lagarto, voltou a olhar para ele. Estava mais perto de Décio, porém, ma mesma posição, o encarando. - Vejo que você ainda está aí. - Sorriu. - Por que me observa tão sério? É uma manhã de sol, estamos no verão... Esse calor faz bem para você, sabia? - O lagarto continuou imóvel. Se Décio não tivesse visto se movimentando, poderia achar que era uma escultura. - Vai ficar me observando a manhã toda? Vai ter que ir caminhando, comigo, em breve. Caminhar faz bem para mim. Você vai ficar entediado... Gosto da praia, de olhar o mar, o azul do céu. Você deve gostar disso também. Não está me encarando, calado desse jeito, para me atacar, não é mesmo? Alguém pediu isso? Algum editor, livreiro, escritor, jornalista ou fã furioso? Lamento, caro lagarto. Nunca faço concessões literárias, nem sob riscos de dentadas. Tomo as minhas decisões, conduzo a minha carreira profissional, de forma independente. Se for esse o caso... Pode ir. Avise a quem o enviou. Diga que o velho Décio continua firme nas suas convicções. Escrevo, intitulo, corrijo, organizo, publico... Apenas o que e quando quero. Sou um escritor cheio de personalidade. Fazer o quê?... Também não cedo os meus direitos autorais, não permito que terceiros finjam ter escrito o que eu escrevi. Sou assim, sabe? Gosto de autenticidade, verdade. Diga isso, porque já ouvi cada proposta!... Já fizeram todo tipo de pressão, em vão. Sou inflexível, aviso. Fique sabendo... Não perca o seu tempo, Avertano!... Posso chamá-lo assim? Você tem cara de Avertano! Se não diz o seu nome, invento um. Coisa de escritor. Gosto de dar nome a tudo, todos, coisas, pessoas, quando cismo. Guardo para mim, fique tranqüilo. É um velho vício humano, Avertano, dar nome a tudo. Caro lagarto, amigo Avertano, o que salva este monólogo é que eu gosto mesmo de falar. Não tenho vergonha de dialogar com pedras, grãos de areia, insetos, estrelas, lagartos... Pode alguém passar por aqui e pensar: "Finalmente! Décio enlouqueceu! Está falando com um lagarto!..." Mas, nós dois sabemos, nada é a toa. Não nesse mundo, não é, Avertano? Há um bom motivo para você estar aqui, me observando, por tanto tempo, com tamanho interesse. Se quer dizer algo, diga logo. Daqui a cinco minutos, começo a minha caminhada. Vou até a outra ponta da praia. A não ser que queira me acompanhar, ou lascar uma mordida no meu calcanhar... Se apresse a dizer o que deseja! Qual é o seu interesse em mim, Avertano? É meu leitor? Não nada para autografar, no momento. Está insatisfeito com o destino de algum enredo, personagem? Tem uma idéia, sugestão, memória que deseja que eu desenvolva, introduza, em algum dos meus romances? Ou é como aqueles celerados, e acha que eu tenho obrigação de escrever o livro que você não escreve, e entregar para você. Você vai dizer, mentindo, que escreveu, autografar, assinar, como se fosse o autor? Avertano, aviso que já conheci muita gente doida, hein?!... A não ser que tenha uma loucura nova, eu já digo, conheço todas as tramóias, embustes e manobras, com as quais tentam enredar, como se fossemos trouxas, peixes inocentes, tolos, nós os autores... Comigo, não mesmo, Avertano! ... Bom, vejo que você não está interessado em conversar! Não quer autógrafo... Vou levantar. Até logo, amigo! Ou até nunca mais... Sinto dizer que você é o sujeito mais calado que conheci, em toda aminha vida! Que coisa difícil conversar contigo! Como saber o que você quer? Se é que quer algo!... Você não diz nada. Bom... Tchau, Avertano!... - E dizendo isso, Décio levantou, foi caminhando, para a esquerda. Avertano, o lagarto, assim que Décio se afastou, moveu a cabeça, o corpo. Exibiu um largo sorriso, e foi espalmando as belas patas e garras, que pareciam desenhadas, como todo o seu corpo harmonioso, por hábil artista. Moveu-se na direção da areia da praia. -----------------------

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